Curso sobre suicidologia e segurança pública reúne profissionais de saúde das forças de segurança do estado e município do Rio de Janeiro

Curso sobre suicidologia e segurança pública reúne profissionais de saúde das forças de segurança do estado e município do Rio de Janeiro

Capacitação inédita é fruto da parceria do Hospital São Francisco com o MPT-RJ e integra o programa de assistência à saúde mental dos agentes de segurança pública

“O suicídio é 17ª causa de morte em geral. É um absurdo que a gente não esteja morrendo de doença. A biologia avançou muito. Houve um grande enriquecimento das tecnologias que cuidam da vida, do corpo, mas as questões humanas, sociais, físicas e mentais continuam a ser um grande problema para nós”. A frase foi proferida pela professora e socióloga, pesquisadora emérita da Fundação Oswaldo Cruz e autora de mais de uma dezena de livros, entre eles, ‘Missão Prevenir e Proteger: condições de vida, trabalho e saúde dos policiais militares do Rio de Janeiro’, Maria Cecília de Souza Minayo, em sua aula magna, na abertura do curso de aperfeiçoamento em Suicidologia e Segurança Pública, oferecido pelo Hospital São Francisco na Providência de Deus (HFS-RJ) e o Ministério Público do Trabalho (MPT-RJ). Ela apresentou um panorama completo do suicídio em todo o mundo e ressaltou que um terço das mortes não ocorreriam se não houvesse tantos suicídios.

O curso, que tem coordenação acadêmica da socióloga e pesquisadora Dayse Miranda, fundadora do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), e duração de um ano, faz parte do programa de assistência à saúde mental dos agentes de segurança pública do MPT-RJ com objetivo de capacitar profissionais de saúde da área da segurança para lidar com situações de estresse dos agentes e realizar intervenções diante do sofrimento psíquico das tropas.

Policial civil da ativa e coordenadora do Programa Segurança que Previne, desenvolvido pelo IPPES, Meire Cristine de Souza, celebrou o início das atividades acadêmicas. “Eu sou militante em prol da saúde dos agentes de segurança há algum tempo e fico feliz com toda essa integração. O curso tem a marca do ineditismo, dentro do contexto que une a academia e a área médica, o que é muito importante, porque valida todos os nossos ensinamentos e as nossas pesquisas e aprimora cada vez mais as ações de prevenção”, pontuou.

De acordo com o Boletim IPPES Brasil 2024, mais de 820 profissionais da segurança pública da ativa perderam a vida no Brasil, sendo 759 por suicídio e 62 por homicídios/feminicídios seguido de suicídio nos últimos seis anos. “Esses dados sinalizam a gravidade do problema e a urgência por ações estratégicas de prevenção e pósvenção de suicídio na Segurança Pública do Estado e do Município do Rio de Janeiro”, ressalta a professora Dayse.

Formam a primeira turma do curso 90 profissionais de saúde da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP), Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), Guarda Municipal (GM-RIO) e das demais instituições parceiras do Programa de Assistência Ampla e Integrada à Saúde Mental e Valorização dos Agentes de Segurança Pública do Estado e Município do Rio de Janeiro, desenvolvido pelas procuradoras do MPT-RJ Cynthia Maria Simões Lopes e Samira Torres Shaat. Cynthia ressaltou que o projeto passa pela técnica,mas com o compromisso com a dor do outro. “Isso é desafiador e ao mesmo tempo nos faz crescer”, afirmou. Samira frisou que o curso foi idealizado com muita atenção e cuidado. “E com um objetivo: deixar um legado que é a contribuição de um plano de intervenção de prevenção e pósvenção em suicídio. É muito importante lidar com essa complexidade que estamos enfrentando”.

Entre os alunos, a expectativa é grande. “Os policiais militares constituem um público de risco e a própria instituição tem procurado incentivar programas de prevenção e estudar o tema. Esse curso vem nessa direção de capacitar os profissionais e ter um olhar da instituição mais voltado para essa questão, tendo em vista a prevenção dos riscos e agravos de saúde”, destacou a assistente social da PMRJ, Vânia Lima Cardoso. A policial penal da SEAP e psicóloga Moseli Leite falou sobre a dificuldade em tratar problemas relacionados à saúde mental dentro das forças de segurança: “O profissional busca ser um super herói e acaba olhando para si próprio. É preciso mudar essa mentalidade de que o ‘guarda’ é inatingível e não fica doente. Procurar ajuda, perceber que precisa de ajuda é muito distante da nossa realidade, então eu estou muito animada porque este estudo vai melhorar muito a lidar com essa questão”.

O psicólogo Noel Fernandes Garcia, da coordenadoria de valorização do servidor da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, já atua pela melhora da qualidade de vida não só dos servidores, mas também dos familiares. Esse curso vai nos enriquecer e agregar valores e conhecimentos para que possamos atender melhor esse grupo de pessoas. O suicídio deve ser levado muito mais a sério do que está sendo e esse curso é excepcional para isso. Estamos muito felizes de participar”. O comissário de Polícia Civil e psicólogo Cleber Matos, criou uma metáfora para dar conta da sua expectativa: “Imagina aquele rio parado. Alguém joga uma pedrinha e gera uma onda. É em cima desta onda que eu quero me colocar. Eu não quero o epicentro. Eu quero atingir as margens, os meus colegas que estão lá fora são essas margens e eu quero atingí-los”.

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Força-tarefa faz hospital do Rio atingir 1.500 cirurgias realizadas bariátricas pelo SUS

Força-tarefa faz hospital do Rio atingir 1.500 cirurgias realizadas bariátricas pelo SUS

“A cirurgia bariátrica não é um milagre e sim uma ferramenta para a mudança do estilo de vida e para priorizar a saúde do meu corpo”, afirma a especialista em gestão de negócios e finanças, Ludmyla de Oliveira, 35 anos e 136 kg. Ela e outros 14 pacientes com obesidade terão a chance de virar a chave e conquistar a chance de viver com mais saúde nos dias 21 e 22, em uma força-tarefa da equipe do Programa ESTAR, voltado para a realização de cirurgias bariátricas e metabólicas pelo SUS no nosso hospital, fruto de uma parceria com a Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro. Perto de completar 3 anos de funcionamento no HSF, o Programa irá alcançar, durante a ação, a marca de 1.500 cirurgias realizadas na unidade. Para comemorar o sucesso do serviço, no dia 23, domingo, das 9h às 11h, foi realizado um aulão de ginástica, com atividades especialmente desenvolvidas pelos educadores físicos da equipe ESTAR para os pacientes em tratamento de obesidade.

A mobilização dos cirurgiões do Programa é parte de uma grande ação realizada também em São Paulo e Recife, com o objetivo de chamar a atenção para a luta contra a obesidade e que conta com o apoio da Medtronic. “Fico feliz em participar, mais uma vez, deste movimento que marca o Dia Internacional de Luta Contra a Obesidade. Não se trata de uma comemoração, mas sim um alerta para a comunidade médica e, principalmente, para população de que a obesidade é uma doença, o que muita gente desconhece. E é ainda um fator de risco para outras, como diabetes tipo 2, cirrose, as cardiovasculares, hipertensão, acidente vascular cerebral e diversas formas de câncer. É preciso que as pessoas saibam que quanto mais precocemente procurarem ajuda de um especialista, melhor para a saúde”, orienta o cirurgião Fernando de Barros, que coordena o serviço para pacientes do SUS no HSF.

O especialista conta que recebe muitos pacientes com obesidade em estágio avançado, mas que eles não chegaram a esse ponto de uma hora para outra. “Essas pessoas não foram orientadas ou incentivadas a buscar tratamento precocemente. E, hoje, o melhor tratamento que temos para a obesidade é a cirurgia bariátrica e metabólica, para melhorar a qualidade de vida do paciente de forma significativa. Com ela, não combatemos apenas o acúmulo de gordura corporal, mas também as doenças crônicas, o que ajuda a reduzir o número de internações e complicações por doenças cardiovasculares e outros problemas, como cirrose, hemodiálise, amputação, cegueira, artrose, hérnia de disco, por exemplo”, ressalta o especialista, que é professor adjunto do Departamento de Cirurgia da Universidade Federal Fluminense.

Experiência de sucesso

Foi em busca de mais saúde e de melhor qualidade de vida que Ludmila entrou para o Programa em novembro passado e começou a se preparar para a cirurgia. “Decidi que precisava dizer não para algumas coisas e enfrentar a obesidade como uma doença, já que queria viver mais”, diz ela, que além de sentir dores no corpo, estava diabética e hipertensa. Isa Caetano, 59 anos, foi outra que sofria com a hipertensão, artrose nos joelhos e estava pré-diabética. “Era difícil andar, eu não podia mais fazer caminhada, tinha dificuldades para subir escadas e descer era pior ainda. Estava difícil andar de ônibus sozinha porque eu tinha medo de cair ao saltar. Agora, depois da cirurgia, faço tudo isso com tranquilidade e também estou fazendo musculação, por orientação da equipe médica”, relata. Isa entrou no programa com 98 kg. Operada em fevereiro de 2024, ela atualmente pesa 62 kg.

O diretor geral do HSF, Frei Nicolau Castro, festeja as inúmeras histórias de superação e conquista de qualidade de vida dos pacientes que passaram pela transformação que a cirurgia bariátrica e metabólica representa. “São muitos relatos emocionantes de pacientes que não conseguiam realizar tarefas simples, do dia a dia sem ajuda e que no pós-cirurgia retomaram o controle de suas vidas. É com muita alegria e responsabilidade que empenhamos esforços para transformar vidas”.

Oficina de teatro estimula pacientes psiquiátricos a expressarem sentimentos e emoções

Oficina de teatro estimula pacientes psiquiátricos a expressarem sentimentos e emoções

Aula inaugural contou com palestra do ator Pedro Carvalho, que compartilhou experiências relacionadas à saúde mental com pacientes

Arte faz bem à saúde. E isso não é apenas força de expressão. Relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) revelou que as artes ajudam não só a melhorar a saúde mental como também a física, além de ajudarem a compreender e comunicar conceitos e emoções. Pensando nisso, o Polo de Atenção Integral à Saúde Mental Papa Francisco (PAI) do Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF-RJ) deu início a um novo programa dentro do plano terapêutico dos pacientes psiquiátricos internados na unidade: a oficina de teatro, com encontros semanais e a participação de profissionais da área que serão convidados a compartilhar experiências do meio artístico e orientar atividades com os alunos. “Quando nossa equipe multidisciplinar pensou nas aulas de teatro não era na intenção de promover montagens ou encenações. Nosso objetivo é criar um espaço onde os pacientes se sintam seguros para se expressar e possam desenvolver habilidades para que possam interagir melhor uns com os outros. Sobretudo, que possam mostrar quem são por trás dos transtornos que os levaram até ali”, lembra a gerente do Polo de saúde mental do HSF, Michelle Estefânio.

O pontapé inicial da programação de encontros da oficina de teatro teve um convidado muito especial: o ator Pedro Carvalho, que viveu o personagem Rui Sodré na novela Fuzuê, da TV Globo. Ele encontrou uma brecha entre seus compromissos profissionais para uma conversa franca e aberta. “Eu não sou diferente de vocês que se encontram aqui em tratamento. Também tenho minhas questões com saúde mental e faço terapia. Posso dizer que o teatro me salvou, porque eu era muito tímido e a arte me ajuda a manter a minha saúde mental”, contou ele aos participantes da oficina, que aproveitaram cada momento com o ator e fizeram diversas perguntas sobre a experiência dele e o método de criação. “Pessoas que têm questões relacionadas à saúde mental, na maioria das vezes, são muito criativas e precisam canalizar essa arte. Eu, além de atuar desde criança, também sou artista plástico e gosto muito de pintura”, afirmou.

Os encontros semanais estão sob a responsabilidade do Frei Benedito Renner e da supervisora de atendimento Iasmin Gonçalves, que integram a Pastoral da Saúde do HSF. “Queremos que os pacientes possam, através da arte, construir relações pessoais, além de passar por um processo profundo de autoconhecimento que poderá ajudá-los no tratamento a que estão submetidos”, revela o Frei Benedito.

Já as atividades teatrais serão comandadas pelo fundador do Cia. Teatral Milongas, o ator Breno Sanches. Formado em Arte Cênicas (Direção Teatral) pela UNIRIO. Breno já participou de diversas novelas como A Dona do Pedaço, Malhação e A Força do Querer, da Rede Globo. “Desde o primeiro momento em que visitei o hospital, eu fiquei muito bem impressionado com a quantidade de atividades propostas aos pacientes psiquiátricos. Dentro dessa dinâmica, as aulas de teatro são uma atividade realmente importante porque o teatro tem uma dinâmica de jogo e de interação onde a pessoa que está em cena se propõe a se abrir, se expor, de se expressar de outras maneiras, colocar para fora emoções e tensões para poder rever, inclusive questões próprias. Um espaço seguro, sem opressão, onde eles podem se expressar de forma espontânea e artística”, pontua ele.

Atendimento especializado

O PAI oferece atendimento psiquiátrico e multidisciplinar a pessoas com transtornos mentais e por uso de drogas, em casos em que haja necessidade de internação e cuidados integrais, como quando há ideação suicida ou o paciente representa risco para ele próprio ou para outras pessoas. O Polo conta com uma equipe de médicos psiquiatras e clínicos exclusivos para o serviço. Possui ainda psicólogos, terapeutas ocupacionais, assistente social, nutricionista, educador físico e equipe de enfermagem especializada. E ainda conta com uma emergência em Psiquiatria 24 horas. Além da nova oficina de teatro, os pacientes internados participam de oficinas terapêuticas de pintura e artesanato e de confecção de bijuterias, além de cuidar da horta.

 

Médicos brasileiros descobrem que doenças neurológicas podem evoluir de forma silenciosa mesmo com medicação

Médicos brasileiros descobrem que doenças neurológicas podem evoluir de forma silenciosa mesmo com medicação

As aparências podem enganar. Casos considerados clinicamente estáveis de pacientes com neuromielite óptica e esclerose múltipla podem, na verdade, estar progredindo de forma silenciosa. O alerta dos especialistas da equipe do serviço de Neurologia do Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF-RJ) foi apresentado no Congresso Anual da Academia Europeia de Neurologia (EAN), realizado na Finlândia. “Nossos trabalhos apontam que devemos estar sempre atentos, mesmo quando tudo parecer sob controle. Detectamos que, em ambas as doenças, há um grupo de pacientes que, apesar de uma aparente estabilidade clínica e que, mesmo medicados, podem estar evoluindo com uma progressiva perda celular. Ao mesmo tempo, esta percepção de uma falsa estabilidade pode ocasionar um ‘perigoso relaxamento no tratamento’”, afirma o neurologista Gustavo Figueira, um dos responsáveis pelos estudos.

A descoberta partiu de um estudo realizado com pacientes tratados com esclerose múltipla no hospital em que trabalham. Segundo os especialistas, dos 148 pacientes classificados como estáveis de acordo com os critérios atualmente utilizados para a avaliação das doenças, “aproximadamente 23 % deles apresentaram piora no Índice de Corpo Caloso (CCI), o que evidencia piora da atrofia cerebral”, afirma Gustavo. Fernando Figueira, neurologista chefe da equipe, complementa dizendo que o estudo clínico desenvolvido por eles é de grande valia, se for levado em conta o alcance da doença no mundo: 2,8 milhões de pessoas.

O estudo também verificou que 20% dos pacientes com neuromielite óptica atendidos pela equipe de neurologia do HSF também tiveram evolução do quadro. Considerada uma doença neurológica rara autoimune, a neuromielite óptica atinge entre 7 a 10 mil pessoas em nosso país, segundo a Associação Brasileira de Pacientes de Neuromielite Óptica, a NMO Brasil. “Verificamos que dentre aqueles classificados como estáveis apresentaram piora no CCI acima dos limites de corte, o que significa que a doença está progredindo de forma silenciosa”.

Para a realização das avaliações que levaram a estes resultados, os neurologistas do HSF desenvolveram um método próprio, por meio do uso de exames de ressonância magnética. “Através destas análises, pudemos detectar que alguns pacientes estavam tendo piora em sua imagem, embora isso não fosse aparente clinicamente”, conta Figueira.

A descoberta pode proporcionar a esses pacientes maior qualidade de vida ao impedir que a doença avance silenciosamente, com o risco de, mesmo na ausência de novos surtos, produzir danos permanentes ao sistema nervoso central, sobretudo na área cognitiva, comprometendo tanto a velocidade de processamento da informação quanto o pensamento executivo, ocasionando prejuízo funcional, com impacto inclusive na empregabilidade. “Ao mesmo tempo, enfatiza a necessidade de considerarmos a atrofia cerebral como um parâmetro evolutivo relevante, estimulando sua avaliação sistemática e a busca de novas drogas que possibilitem um verdadeiro e completo controle da doença”, conclui Fernando Figueira.

Transplante hepático incomum aumenta qualidade de vida de paciente

Transplante hepático incomum aumenta qualidade de vida de paciente

Pacientes que têm órgãos transplantados precisam tomar medicação por toda a vida, para evitar que o corpo rejeite o implante. Mas esse não é o caso de Samantha Noventa, 32 anos, que faz parte de um grupo de cerca de 10 pacientes de todo o país que passaram por um procedimento incomum e altamente complexo: o chamado transplante auxiliar de fígado. Neste procedimento, a equipe cirúrgica preserva uma parte do fígado do paciente e realiza o implante de um novo órgão inteiro, como explica o cirurgião hepatobiliar Eduardo Fernandes, coordenador do serviço de transplantes hepáticos do Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF-RJ), o maior centro transplantador renal e hepático do estado do Rio de Janeiro.

“No caso de Samantha, usamos uma técnica para a remoção de 75% do fígado nativo dela e implantamos um órgão inteiro. Na prática, ela ficou com 2 fígados, ou seja, uma parte do fígado próprio que foi preservado e o outro, que foi doado. Com isso, após alguns meses nós poderemos remover o fígado que foi transplantado nela e o nativo recuperar a falência a que foi acometido. Assim, ela não precisará tomar remédio pelo resto da vida para evitar a rejeição ao órgão”. Samantha é apenas a quarta paciente a passar por esta modalidade de transplante no HSF. Ao todo, já foram realizados na unidade 943 transplantes hepáticos, de 2013, quando este serviço teve início, até o fim de setembro deste ano.

Vida nova

Um mês e meio depois da cirurgia, o sentimento de Samantha é de gratidão. “Eu demorei a entender o que tinha acontecido e só tive noção da gravidade da situação aos poucos”, lembra ela. Samantha teve uma hepatite fulminante que evoluiu rapidamente e, quando chegou ao HSF transferida de outra unidade, estava em estado grave. “Eu não tenho lembrança do que aconteceu logo depois que cheguei ao Hospital São Francisco”, conta ela. Mariana Noventa, irmã de Samantha, que esteve ao seu lado na primeira unidade de saúde em que esteve internada, relata que Samantha teve um edema cerebral. “O médico avisou que precisaria intubá-la e que ela tinha no máximo 48h para que o transplante fosse realizado”, recorda. Mariana diz que a família ficava de plantão no hospital, mesmo fora do período de visitas, porque era o jeito de poder ficar mais perto de Samantha. “Eu agradeci por ela ter sido transferida para o HSF, porque sentia que ela estava no lugar certo. O sentimento era confuso: nós sabíamos que não poderíamos nos desesperar e devíamos manter o otimismo, mas era difícil torcer para ela ter um órgão pois isso significaria que alguém teria que perder a vida”, relata.

Dois dias depois, exatamente no dia 17 de agosto, um dia antes do aniversário de Mariana, o novo órgão chegou e, só depois do procedimento e ainda em recuperação é que Samantha ficou por dentro de tudo o que tinha passado. “Acordei seis dias depois da cirurgia com boas notícias: nós batemos o recorde de doação de sangue, com mais de 100 doações em meu nome. Estou esperançosa e feliz por ter essa segunda chance e por ter tanta gente que apoiou minha família neste momento difícil e o desafio agora é encarar o futuro: vou lutar para ter de volta minha autonomia, vou cuidar melhor do meu fígado e adotar hábitos mais saudáveis”, prevê ela.

Hospital São Francisco celebra a vida com palestras sobre doação de órgãos, saúde mental e segurança do paciente

Hospital São Francisco celebra a vida com palestras sobre doação de órgãos, saúde mental e segurança do paciente

O Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF-RJ) promoveu, entre os dias 23 e 26 de setembro, a edição 2024 da Semana da Conscientização à Vida. O evento foi direcionado não só a profissionais de saúde, mas também ao público em geral. Cento e vinte pessoas se inscreveram para acompanhar, gratuitamente, as palestras apresentadas por profissionais do hospital e especialistas convidados. Programada para promover discussões que melhorem a assistência, a quinta edição do evento começou, como já é tradição, com uma missa solene em homenagem aos doadores de órgãos e seus familiares, presidida pelo Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro, Orani Tempesta. Ele enfatizou que é uma alegria poder abrir a programação que destaca temas tão relevantes e também frisou o papel fundamental que o hospital desempenha como o maior centro transplantador renal e hepático do estado, com procedimentos realizados em quase sua totalidade pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Em seu discurso de boas-vindas na abertura da programação científica, o diretor administrativo do HSF, Márcio Nunes, chamou a atenção para o fato de que, apesar de tratar de três temas bem diferentes, o evento tem um elo comum a todos: a vida. “Estamos celebrando a vida em todos os sentidos: em sua continuidade, importância e inestimável valor”, declarou.

O tema doação de órgãos foi abordado pelas enfermeiras Viviane Solis e Patrícia Lamiz, representantes da Organização de Procura de Órgãos, a OPO Norte, que funciona no HSF. As representantes falaram sobre a busca ativa de doadores de órgãos e os principais desafios. A enfermeira Bianca do Vale, que é coordenadora do núcleo de acolhimento e entrevista familiar do RJ Transplantes, ministrou um minicurso sobre o assunto visando ajudar no entendimento do processo dos pacientes que estão com critério de morte encefálica, e como identificá-lo.

O protocolo do coração parado foi o tema tratado por Lindalva Souza, enfermeira da equipe da Comissão Intra-Hospitalar para Doações de Órgãos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do Hospital Federal de Bonsucesso e do Doe + Vida e Tatiane Gargano, enfermeira responsável pela área técnica de multitecidos do Banco de Tecidos do Instituto Nacional de Ortopedia e Traumatologia, serviço pioneiro que atende a hospitais de todo o país. Tatiana explicou que diferentemente do que acontece com a retirada de órgãos, que necessariamente deve ocorrer com o coração batendo após a detecção da morte cerebral do doador, os tecidos podem ser retirados com o coração parado.

“Não deveríamos ter fila de pessoas à espera de tecidos, mas temos. A fila de córnea é a segunda maior do país. No estado do Rio, em torno de 5 mil pessoas aguardam por um transplante de córnea. E no ano passado, que tivemos um recorde de cirurgias de transplante de córnea, realizamos 610 procedimentos. Mas é importante dizer: todo paciente que vai a óbito é um potencial doador de tecidos, como córnea, pele e ossos. Também podem ser doadas veias e valvas cardíacas, mas não fazemos esta captação no Rio de Janeiro”, disse. Tatiane explicou ainda que os tecidos doados não têm risco de rejeição, pois são preparados e processados para que possam ser encaminhados aos receptores e reforçou que ainda há muito desconhecimento sobre o assunto. “Vários familiares não autorizam a retirada da pele de seu ente querido, imaginando que vamos retirar a pele do rosto, o que inviabilizaria o velório com caixão aberto. Mas não fazemos isso”, esclarece.

Lindalva Souza chamou a atenção para os requisitos básicos para doar. É preciso atender a alguns critérios, como ter a identificação civil e saber a causa da morte conhecida. “O corpo deve ser refrigerado, para manter os tecidos e permitir que a equipe de captação faça o seu trabalho. Caso não seja refrigerado, a retirada tem que ser feita em até 6 horas. Se houver refrigeração, ampliamos esse prazo para 24h. E é imprescindível ter a autorização da família”, disse. Temas como os desafios de médicos em grandes hospitais de trauma e empatia com a dor e o sofrimento foram debatidos por cinco especialistas convidados que participaram de uma mesa redonda.

No dia dedicado à saúde mental e à valorização da vida, a psicóloga e coordenadora técnica de saúde mental do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), Monica Paes, trouxe importantes reflexões com a palestra ‘Vida, Morte e Luto’, abordando a complexidade emocional do luto e enfatizando que ele é um processo singular e subjetivo e ressaltou que o apoio psicológico é fundamental para enfrentar esses desafios e preservar a saúde mental. “O luto é uma vivência de cada um, onde cada um vai ter o seu tempo e diversos fatores podem, às vezes, dificultar esse luto. Mas é importante a gente viver pelas diversas fases desse luto, pois isso perpassa também a saúde mental. E a gente precisa de alguns pilares como a espiritualidade, suporte da equipe e de familiares para conseguir passar por esse processo e conseguir manter a saúde mental”, comentou.

Na sequência, a assistente social do IPPES, Danielle Fonseca, apresentou a palestra ‘O Sentido da Vida’, que enfatizou a temática do setembro amarelo. “O mês é mais voltado para prevenção ao suicídio e acabamos deixando de falar da vida. E aqui, nesse contexto hospitalar, é muito importante, porque estamos falando de cuidar de quem cuida. Além de ter que lidar com as suas próprias dores, os profissionais precisam lidar com as dores dos outros. Então é muito importante esse momento. Eu quero parabenizar o hospital por essa iniciativa, porque todas as vidas importam e para cuidar, todos precisam estar bem. Esse é um momento muito importante que cada profissional pode parar e refletir sobre sua vida e depois olhar para o outro”, completou. O psiquiatra Rafael Botelho, que faz parte da equipe do Polo de Atenção Integral à Saúde Mental (PAI), e a psicóloga Fátima Mangueira completaram a programação do dia, falando sobre a valorização à vida e sobre as perspectivas de familiares e equipes de assistência, respectivamente.

A temática segurança do paciente encerrou a programação da Semana de Conscientização à Vida. O diretor Regional da MedSênior-RJ, Carlos Lobbé, falou sobre a importância da comunicação de eventos adversos. “É fundamental revelar o que tradicionalmente se mantinha em segredo dentro das instituições de saúde, abrir um diálogo honesto, empático e oportuno entre pacientes, familiares e a equipe de assistência”, destacou. De acordo com ele, os avanços técnicos e a padronização de procedimentos não foram suficientes para reduzir de forma significativa a ocorrência de eventos adversos e o movimento atual é criar uma cultura de alta confiabilidade nas instituições. “Muitas pessoas optam por não notificar erros e eventos adversos por medo da punição, mas na maioria dos erros, a falha é do sistema. Identificar o culpado é o início e não o fim da análise e o caminho para mudar isso é investir em treinamento e capacitação das equipes. Treinar, treinar e treinar”, apontou o gestor.

O coordenador de Qualidade e Risco do Hospital São Vicente de Paulo (HSVP-RJ), Vanderlei Timbó, abordou um tema fundamental na questão do manejo de erros adversos: a segunda vítima, que é o profissional de saúde. Ele frisou que é fundamental dar suporte ao colaborador e que as instituições devem criar estratégias para auxiliar a chamada segunda vítima. “Esse profissional deve ser acompanhado, pois pode apresentar respostas emocionais que variam de sono de má qualidade e sentimento de culpa e medo a abuso de drogas e até ideação suicida”, alertou. Vanderlei ressaltou que é importante que os profissionais desenvolvam estratégias pessoais para enfrentar este momento, como reconhecer suas próprias emoções, procurar por suporte e ajuda profissional e fazer uso de práticas de relaxamento.

Ministrada por João Lucena, integrante da Câmara Técnica de Segurança do Paciente do Conselho Federal de Medicina (CFM), a palestra ‘Errar é humano’ trouxe uma reflexão sobre o tema. “Um piloto de avião não decola sem que antes esteja tudo adequado na aeronave. Se o motor da direita não estiver funcionando, não dá para prosseguir viagem só com o da esquerda. Da mesma forma também tem que ser com a assistência prestada dentro do hospital. Não podemos negligenciar as exigências para um bom atendimento médico. Errar é humano, mas há mecanismos para evitar o erro e o evento adverso, como as barreiras de proteção, a supervisão, a avaliação periódica, o aumento da percepção das condições latentes dentro do ambiente de trabalho e o cumprimento dos protocolos”, finalizou.

Paralelamente à programação científica, o público e palestrantes tiveram a oportunidade de visitar a exposição ‘A vida é bonita’, formada por pinturas e fotografias produzidas por pacientes psiquiátricos internados no PAI. Foi também criada uma sala com uma ambientação especial para induzir ao relaxamento, com música suave, iluminação fraca e aromas reconfortantes.

 

 

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