Os desafios da alta hospitalar segura, a transição do cuidado e o uso de novas tecnologias para o telemonitoramento e acompanhamento domiciliar à distância foram alguns dos temas abordados no III Simpósio de Desospitalização – do hospital ao lar, estratégias para uma transição segura e humanizada, promovido este mês no Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF-RJ). Voltado a profissionais da área da saúde, o evento reuniu médicos, auditores médicos, profissionais de Enfermagem, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, farmacêuticos clínicos, pesquisadores da área da saúde, gestores e coordenadores hospitalares e equipes de programas de unidades de transição de cuidados e de atenção domiciliar. “Elaboramos uma programação que englobou aspectos técnicos, humanos, operacionais e tecnológicos envolvidos no processo da alta segura, de forma a garantir uma visão abrangente e realista dos desafios e soluções possíveis para esta questão. Acreditamos que a troca de experiências e de conhecimentos têm extrema importância não somente para nossos colaboradores, mas para todos os profissionais que acompanharam a programação”, salienta Márcio Nunes, diretor executivo do HSF.
O pesquisador do Laboratório de Engenharia de Software Aplicada em Saúde da PUC-Rio, Antônio Benchimol, destacou os benefícios do uso da tecnologia a serviço do cuidado. “Contrariando a ideia de que a tecnologia afasta, o telemonitoramento, quando bem implementado, tem o poder de aproximar. Ele cria uma ponte contínua entre o paciente e a equipe de saúde, ampliando a presença do cuidado mesmo à distância”, afirmou. Ele apresentou o telemonitoramento como ferramenta estratégica para ampliar o alcance da assistência médica e garantir um cuidado mais contínuo e humanizado, especialmente para pacientes com doenças crônicas. Ao permitir o acompanhamento remoto por meio de dispositivos conectados, a prática reduz reinternações, melhora a adesão ao tratamento e oferece mais conforto e segurança. Segundo ele, “ética e tecnologia precisam caminhar juntas. A digitalização do cuidado não pode reduzir o humano a um dado — o dado é apenas um meio. A finalidade continua sendo o bem-estar do paciente”.
A mesa redonda ‘Os desafios de uma desospitalização segura nos diferentes pontos de vista – Operadoras de Saúde e Rede Hospitalar Credenciada’ reuniu representantes de operadoras de saúde e de serviços médicos. O painel destacou a tendência mundial de ampliar o cuidado para além do ambiente hospitalar, tornando-o mais eficiente, seguro e centrado no paciente. Modelos como o hospital em casa, terapias domiciliares supervisionadas e o telemonitoramento foram apontados como alternativas que reduzem custos, liberam leitos e melhoram a qualidade de vida. Os palestrantes também ressaltaram o papel da tecnologia na consolidação da desospitalização, com inovações em medicamentos e suporte ao paciente, além do monitoramento em tempo real.
O diretor técnico da FioSaúde, Arthur Monteiro Bastos, falou sobre a importância de ampliar o cuidado para além do ambiente hospitalar. Ele explicou que a desospitalização consiste em transferir, de forma segura e planejada, os cuidados de saúde para o domicílio, ambulatório ou comunidade, garantindo continuidade assistencial e evitando internações desnecessárias. Entre os principais desafios para a implementação, destacou a necessidade de melhorar a infraestrutura, vencer a resistência cultural, integrar melhor os serviços e adequar a legislação e cobertura dos planos. “Ainda existe uma cultura hospitalocêntrica. Precisamos entender que o cuidado pode e deve acontecer também fora do hospital, com segurança e qualidade”, declarou.
Rodrigo Teixeira, gerente regional da MedSênior no Rio de Janeiro, abordou o tema ‘Mundo real: dificuldade na desospitalização’. Ele ressaltou a resistência de familiares em levar o paciente para casa, a necessidade de profissionais capacitados para o atendimento domiciliar e a disponibilidade de equipamentos e medicamentos adequados. Segundo o especialista, definir o tempo ideal de permanência no hospital e promover o trabalho conjunto entre equipes são fatores essenciais para garantir uma desospitalização segura e eficaz.
Para a gerente de Enfermagem do HSF, Michelle Estefânio, o sucesso desse processo depende do tempo e da integração entre as equipes. “A desospitalização precisa acontecer no momento certo — nem antes, nem depois. Mas isso só é possível com o envolvimento de uma equipe multidisciplinar, em que cada profissional contribui com seu olhar técnico e humano. Essa integração é o que garante que o cuidado continue com qualidade, mesmo fora do hospital”.
A discussão sobre o que acontece após a alta hospitalar foi conduzida pela equipe multidisciplinar da Solar Cuidados e Serviços em Saúde. A psicóloga e gerente da Qualidade da empresa, Katya Almeida, reforçou a necessidade de enxergar a alta hospitalar como o início de uma nova fase do cuidado. Segundo ela, o termo ‘desospitalização’ surgiu como resposta à necessidade de humanizar a atenção em saúde e integrar os diferentes níveis de cuidado, garantindo a continuidade da assistência fora do ambiente hospitalar. Ela explicou que a desospitalização segura é um processo planejado e executado de forma multidisciplinar, que requer avaliação criteriosa das condições clínicas do paciente, disponibilidade de recursos familiares e comunitários e uma rede de apoio bem estruturada. “A alta não é o fim do tratamento. É uma transição que precisa ser acompanhada de forma responsável para evitar riscos, complicações e readmissões”, destacou.
Katya apontou os principais fatores de sucesso para a desospitalização segura, como a adequação da solicitação médica, a avaliação qualificada do paciente, a comunicação clara entre equipe e família e o apoio psicossocial. “Cuidar do paciente é também cuidar de quem cuida dele. A desospitalização é um compromisso coletivo com a segurança e o bem-estar”, concluiu.
A assistente social Marcella Costa trouxe uma visão prática e sensível sobre o papel do Serviço Social na atenção domiciliar e na transição do paciente do hospital para casa. Para ela, a atenção domiciliar é o início de uma nova etapa, onde a casa se transforma em um espaço de tratamento, acolhimento e dignidade. “Nosso papel é garantir que essa transição seja segura, humanizada e centrada nas reais necessidades do paciente e da família”.

