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Curso sobre suicidologia e segurança pública reúne profissionais de saúde das forças de segurança do estado e município do Rio de Janeiro

14 de abril de 2025

Capacitação inédita é fruto da parceria do Hospital São Francisco com o MPT-RJ e integra o programa de assistência à saúde mental dos agentes de segurança pública

“O suicídio é 17ª causa de morte em geral. É um absurdo que a gente não esteja morrendo de doença. A biologia avançou muito. Houve um grande enriquecimento das tecnologias que cuidam da vida, do corpo, mas as questões humanas, sociais, físicas e mentais continuam a ser um grande problema para nós”. A frase foi proferida pela professora e socióloga, pesquisadora emérita da Fundação Oswaldo Cruz e autora de mais de uma dezena de livros, entre eles, ‘Missão Prevenir e Proteger: condições de vida, trabalho e saúde dos policiais militares do Rio de Janeiro’, Maria Cecília de Souza Minayo, em sua aula magna, na abertura do curso de aperfeiçoamento em Suicidologia e Segurança Pública, oferecido pelo Hospital São Francisco na Providência de Deus (HFS-RJ) e o Ministério Público do Trabalho (MPT-RJ). Ela apresentou um panorama completo do suicídio em todo o mundo e ressaltou que um terço das mortes não ocorreriam se não houvesse tantos suicídios.

O curso, que tem coordenação acadêmica da socióloga e pesquisadora Dayse Miranda, fundadora do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio (IPPES), e duração de um ano, faz parte do programa de assistência à saúde mental dos agentes de segurança pública do MPT-RJ com objetivo de capacitar profissionais de saúde da área da segurança para lidar com situações de estresse dos agentes e realizar intervenções diante do sofrimento psíquico das tropas.

Policial civil da ativa e coordenadora do Programa Segurança que Previne, desenvolvido pelo IPPES, Meire Cristine de Souza, celebrou o início das atividades acadêmicas. “Eu sou militante em prol da saúde dos agentes de segurança há algum tempo e fico feliz com toda essa integração. O curso tem a marca do ineditismo, dentro do contexto que une a academia e a área médica, o que é muito importante, porque valida todos os nossos ensinamentos e as nossas pesquisas e aprimora cada vez mais as ações de prevenção”, pontuou.

De acordo com o Boletim IPPES Brasil 2024, mais de 820 profissionais da segurança pública da ativa perderam a vida no Brasil, sendo 759 por suicídio e 62 por homicídios/feminicídios seguido de suicídio nos últimos seis anos. “Esses dados sinalizam a gravidade do problema e a urgência por ações estratégicas de prevenção e pósvenção de suicídio na Segurança Pública do Estado e do Município do Rio de Janeiro”, ressalta a professora Dayse.

Formam a primeira turma do curso 90 profissionais de saúde da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro (PCERJ) Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (SEAP), Departamento Geral de Ações Socioeducativas (DEGASE), Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ), Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), Guarda Municipal (GM-RIO) e das demais instituições parceiras do Programa de Assistência Ampla e Integrada à Saúde Mental e Valorização dos Agentes de Segurança Pública do Estado e Município do Rio de Janeiro, desenvolvido pelas procuradoras do MPT-RJ Cynthia Maria Simões Lopes e Samira Torres Shaat. Cynthia ressaltou que o projeto passa pela técnica,mas com o compromisso com a dor do outro. “Isso é desafiador e ao mesmo tempo nos faz crescer”, afirmou. Samira frisou que o curso foi idealizado com muita atenção e cuidado. “E com um objetivo: deixar um legado que é a contribuição de um plano de intervenção de prevenção e pósvenção em suicídio. É muito importante lidar com essa complexidade que estamos enfrentando”.

Entre os alunos, a expectativa é grande. “Os policiais militares constituem um público de risco e a própria instituição tem procurado incentivar programas de prevenção e estudar o tema. Esse curso vem nessa direção de capacitar os profissionais e ter um olhar da instituição mais voltado para essa questão, tendo em vista a prevenção dos riscos e agravos de saúde”, destacou a assistente social da PMRJ, Vânia Lima Cardoso. A policial penal da SEAP e psicóloga Moseli Leite falou sobre a dificuldade em tratar problemas relacionados à saúde mental dentro das forças de segurança: “O profissional busca ser um super herói e acaba olhando para si próprio. É preciso mudar essa mentalidade de que o ‘guarda’ é inatingível e não fica doente. Procurar ajuda, perceber que precisa de ajuda é muito distante da nossa realidade, então eu estou muito animada porque este estudo vai melhorar muito a lidar com essa questão”.

O psicólogo Noel Fernandes Garcia, da coordenadoria de valorização do servidor da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, já atua pela melhora da qualidade de vida não só dos servidores, mas também dos familiares. Esse curso vai nos enriquecer e agregar valores e conhecimentos para que possamos atender melhor esse grupo de pessoas. O suicídio deve ser levado muito mais a sério do que está sendo e esse curso é excepcional para isso. Estamos muito felizes de participar”. O comissário de Polícia Civil e psicólogo Cleber Matos, criou uma metáfora para dar conta da sua expectativa: “Imagina aquele rio parado. Alguém joga uma pedrinha e gera uma onda. É em cima desta onda que eu quero me colocar. Eu não quero o epicentro. Eu quero atingir as margens, os meus colegas que estão lá fora são essas margens e eu quero atingí-los”.

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